DO AMOR À CARIDADE, DA COMPAIXÃO À MISERICÓRDIA
- 4 de mar. de 2017
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Santo Tomás de Aquino, ensina-nos que todo o ser humano tem em si o amor natural, ou seja, a capacidade de amar, que faz parte da natureza humana e é exatamente por isso que o chamamos de amor natural, por pertencer à natureza. Esse amor tem como base o amor próprio, isso significa que o Homem ama por causa do amor que tem por si. Isto é, esse amor tem sempre como objetivo a satisfação pessoal. Ou seja, se alguém me ama e isso me faz sentir bem, então essa pessoa merece o meu amor, pelo menos enquanto me agradar e me conseguir satisfazer. Também pode acontecer, que ao amar alguém (cuidando dele) eu me sinta, ou seja considerado pelos outros, uma boa pessoa. De novo o objeto principal do meu amor sou eu próprio e a minha satisfação pessoal. Assim que me saturar de cuidar do outro ou assim que perceber que não tenho os aplausos dos outros, pelo menos como o desejo, desisto desse amor. Fica claro como é frágil este amor e como é fácil desistir dele. Finito como finitos somos nós.
Porém amar é sempre bom. Todos gostamos e precisamos de nos sentir bem e de nos sentir amados, o problema é que é pouco, muito pouco! E não tem como consequência a felicidade, apenas uma alegria, um bem-estar com data final marcada. Além disso, porque pertence a criaturas manchadas pelo pecado original e por isso com tendência para o mal, o risco de este amor entrar em desordem, é real, mais ainda, é garantido pela nossa fraqueza. Está à vista de todos. Se alguém não nos agrada como desejaríamos, criticamos, desrespeitamos, desconsideramos, até mesmo agredimos nem que seja com palavras. Em suma, não amamos, usamos e somos usados. As consequências deste amor desordenado no mundo todos podemos compreender, pois é o que experimentamos todos os dias. Um amor assim, desagrada a Deus, faz-me mal, faz mal ao próximo e ao mundo.
Então como resolver este impasse?
A solução é o Amor que vem de Deus, a que chamamos Caridade. Este amor é eterno como Deus é Eterno. É perfeito como Deus é Perfeito. Traz consigo a Felicidade Eterna, pois é o próprio Deus, a própria Eternidade. É um amor “sobre”- “natural” (sobrenatural), por estar acima da natureza humana. Com ele, amo o outro por amor a Deus, ou melhor, obedecendo a Deus, que é Amor, amo a Deus amando o outro e amo o outro por amor a Deus. Então agora já não é para me satisfazer a mim, mas em primeiro lugar a Deus e depois ao meu próximo. Já não uso, mas sirvo. Então, não posso nem quero desistir desse amor, pois seria desistir de Deus e por consequência de mim próprio, da minha Vida e Felicidade Eterna. Isto faz com que eu lute por esse amor, não só para que se mantenha, mas para que cresça sempre mais, até ao Céu. Agrada a Deus, faz-me bem a mim, ao próximo e ao mundo.
Mas como posso alcançar a Caridade? Ensina-nos a Santa Madre Igreja, que a Caridade é uma Virtude Teologal, infusa, ou seja, sobrenatural. Vem de Deus e nele tem o seu objeto imediato Recebemo-la com a graça do Batismo, e, em maior abundância, com a da Crisma. Depois cresce à medida em que, através da nossa luta e pela graça de Deus, crescem todas as outras virtudes. Devemos esforçar-nos com determinação, a aprender a amar como Deus nos ensina. E pedir, com perseverança, que Deus nos conceda a graça de aumentar a Caridade em nós.
Quanto à compaixão e Misericórdia, o processo é idêntico.
Através do amor natural eu sou levada a sentir compaixão pela miséria espiritual, moral ou física do outro. Mas nada posso fazer, seja pela minha incapacidade, medo ou por não querer meter-me em trabalhos. Então compadecido, deixo que aquela alma se mantenha na sua miséria. Escondo a minha fraqueza, cobardia ou preguiça atrás de uma moral destorcida em que para não “ofender” o outro, respeito-o. Isto chama-se respeito humano e é pecado grave. Acontece que esse meu “respeito” permite, e por isso com culpa, que o outro continue a destruir-se, ou que alguém o destrua. Como diz S. Tiago (2, 15) “Se um irmão ou uma irmã estiverem nus e precisarem de alimento quotidiano, e um de vós lhes disser: «Ide em paz, tratai de vos aquecer e de matar a fome», mas não lhes dais o que é necessário ao corpo, de que lhes aproveitará?”
Pensemos num ser humano que, pela razão que for, tem comportamentos que estão em total desacordo com os mandamentos de Deus e que, pelo que o próprio Deus na Sagrada Escritura nos ensina, o arrastarão para o Inferno por toda a eternidade se nada for mudado. Se eu aceitar tal comportamento como sendo normal e não o alertar, com Caridade, sobre o perigo que corre, para que possa mudar de vida, para que possa receber a Vida Eterna, sou culpado. Pois com o meu “respeito”, ajudei a precipitar o meu irmão no Inferno. Como posso dizer que sou misericordioso? Chamar isto de Misericórdia é uma ofensa a Deus.
Misericórdia é a compaixão saída do Coração de Cristo – a Divina Misericórdia. E é em união com esta Divina Misericórdia que eu, compadecendo-me dos sofrimentos e misérias do meu irmão, lhe estendo a mão para ajudá-lo a sair dessa miséria que tanto o faz e fará sofrer. Este auxílio pode ser uma ação de consolo material, espiritual ou moral e faz parte das obras de Misericórdia. Esta misericórdia vem da Vida e leva á Vida.
Elevemos o nosso amor à Caridade e a nossa compaixão à Misericórdia.
Sejamos santos como o nosso Pai que está no Céu é Santo.


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